Olha nos olhos, dá abraços e tem amigos. Pode ser autista?
Inês Filipa Valente Carvalho Ferreira · Psicomotricidad
7–8 min de leitura · Publicado a 21 de agosto de 2026

Já tenho ouvido em conversas as seguintes afirmações: “Não pode ser autista porque olha nos olhos enquanto fala”, “Não abana as mãos nem anda em bicos dos pés”, “Ela sabe perfeitamente ter uma conversa com as amigas, interage com elas, portanto não é autista”. Após ouvir estas interjeições, sempre penso e digo: E se o problema estiver precisamente naquilo que esperamos que o autismo pareça? Atualmente, existe uma preocupação acrescida para tentar identificar o diagnóstico de certos indivíduos, como se o diagnóstico pudesse resolver tudo ou colocar tudo dentro da mesma caixa. E surgem debates sobre algo que muitas vezes não é tão claro como a água e que precisa de um acompanhamento clínico rigoroso e feito por uma boa equipa multidisciplinar, ao longo de certo tempo. Para quem não sabe, o diagnóstico é feito por um juízo clínico. Isso significa que, por muitas avaliações, instrumentos e dados comportamentais que se recolham, estes devem ser integrados num juízo clínico realizado por profissionais devidamente habilitados e especializados, idealmente no contexto de uma avaliação multidisciplinar. Nenhum instrumento, isoladamente, estabelece ou exclui o diagnóstico de PEA.
O autismo é um espectro: não existe uma única forma de “parecer autista”
A dificuldade surge quando existem nuances que não se quadram com as ideias que temos de cada nomenclatura, neste caso, da Perturbação do Espectro do Autismo. Começando por analisar o nome Perturbação do Espectro do Autismo (PEA) – o próprio nome indica espectro; isso significa que há uma variabilidade dentro desta perturbação. Tal como existe o espectro da luz que varia entre o violeta e o vermelho, incluindo todas as outras, não deixam de ser denominadas cores. Com a PEA passa exatamente o mesmo. A sociedade desenvolveu um estereótipo de criança/jovem/adulto com PEA, em que tudo o que não corresponde ao espelho dessa imagem é descartado ou posto em dúvida. Como eu explico várias vezes em consulta, ser uma pessoa da PEA não se resume a uma checklist em que ter X comportamentos é igual a ser autista. As perturbações do neurodesenvolvimento requerem profissionais atentos, especializados e capazes de transformar informações em evidências claras, pois tais perturbações não têm necessariamente características imediatamente visíveis e a sua etiologia é complexa, heterogénea e multifatorial.
Como é feito o diagnóstico da Perturbação do Espectro do Autismo?
Por exemplo, na síndrome de Down existe uma alteração cromossómica identificável através de estudo genético. Na PEA, apesar da forte contribuição genética conhecida, não existe atualmente uma alteração genética única ou um biomarcador que permita estabelecer o diagnóstico. Por isso, não se procura um gene específico; procura-se um padrão consistente de desenvolvimento, comportamento e funcionamento. Para se fazer um diagnóstico de PEA, é necessário que existam dificuldades nas três áreas da comunicação/interação social: reciprocidade socioemocional, comunicação não verbal utilizada na interação social e desenvolver, manter e compreender relações. Estas áreas avaliam muitos aspetos qualitativos e não tanto quantitativos, por isso é um trabalho árduo diagnosticar e afirmar que certa pessoa tem uma PEA quando a sua manifestação é ligeira, porque pode bem passar despercebida num grupo social. Além disso, é necessário que tenha pelo menos dois dos quatro tipos de comportamentos/interesses restritos ou repetitivos, dos quais: movimentos, utilização de objetos ou fala repetitivos/estereotipados; insistência na mesmice ou inflexibilidade; interesses muito restritos ou fixos, atípicos pela intensidade ou foco; ou hiper- ou hiporreatividade sensorial ou interesse invulgar por aspetos sensoriais do ambiente. Para completar todos os critérios, é ainda necessário que os sintomas estejam presentes no período precoce do desenvolvimento — ainda que só mais tarde possam tornar-se mais evidentes com as exigências sociais — e que tenham impacto clinicamente significativo no funcionamento da pessoa em questão. Uma vez que já compreendemos que não existe uma cara típica, um biomarcador único que permita diagnosticar a PEA, nem tampouco certos comportamentos típicos ou característicos que, por si só, ditem o desfecho final, então partimos do pressuposto de que, sem analisar o contexto e a qualidade das suas interações, não podemos fazer “juízos de valor”. Por isso, uma pessoa olhar nos olhos não é impeditivo de ser autista. Isto porque pode manter o contacto ocular, mas este pode não apresentar a qualidade esperada para o seu nível de desenvolvimento e contexto, isto é, pode ser fugaz, intermitente, forçado ou aprendido comoUma pessoa autista pode olhar nos olhos? uma regra de comunicação básica. O contrário também se verifica: uma criança de dois anos andar em bicos dos pés não é sinónimo de ter PEA, visto que, nesta idade, pode explorar o ambiente através de diversas formas motoras. Chegamos à conclusão de que, além de se ter que avaliar a qualidade dos comportamentos e do funcionamento nos diferentes contextos, é imperativo também, como descrito acima, reunir um certo tipo de sintomas ao longo do tempo que cause impacto na vida funcional dessa pessoa.
Um comportamento isolado não permite diagnosticar autismo
Uma boa analogia é pensar numa constelação: uma única estrela não forma uma constelação. É necessário observar um determinado conjunto e a forma como os seus elementos se relacionam. Na PEA acontece algo semelhante: um comportamento isolado não estabelece um diagnóstico. É o padrão formado pelo conjunto de características, pela sua qualidade, história de desenvolvimento e impacto funcional que ganha significado clínico.
Não devemos procurar uma imagem fixa de como “parece” uma pessoa autista; devemos compreender o padrão de desenvolvimento, comunicação e interação social, comportamentos/interesses, flexibilidade, características sensoriais e o impacto que esse conjunto tem na vida da pessoa. O maior benefício desta investigação que deve ser realizada é conhecer a pessoa em questão, quais os seus gostos, desgostos, pontos fortes, pontos menos fortes, em que áreas precisa de mais ou menos ajuda. O diagnóstico só é válido se for utilizado com o valor ético inerente ao mesmo. Serve para adotar as melhores estratégias, ferramentas e terapêuticas ao perfil encontrado. Não simplesmente para pôr o rótulo e surgir a discriminação. Até porque, quem disse que por sermos os neurotípicos temos mais vantagem evolutiva que os restantes?
Conteúdo informativo por Inês Filipa Valente Carvalho Ferreira. Não substitui a avaliação de um profissional de saúde. Perante sintomas ou dúvidas concretas, consulta o teu médico ou profissional de referência.



